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Arismendi, Rodney

Matheus Fiorentini

Rodney Arismendi foi um importante líder político, parlamentar, dirigente revolucionário, filósofo e sociólogo marxista que desempenhou intensa atividade política e teórica em âmbito nacional, tal qual na esfera do marxismo uruguaio e latino-americano. Nasceu em 1913 na cidade de Rio Branco, Departamento de Cerro Largo, na fronteira com o Brasil, e faleceu em 1989, na cidade de Montevidéu, capital do Uruguai.

Arismendi foi Secretário-Geral do Partido Comunista do Uruguai (PCU) entre 1955 e 1988, Diretor da Revista Estudios (1956-1989), periódico teórico e político da organização, e exerceu a função de Deputado Nacional durante 27 anos (1946-1973), interrompidos apenas pelo golpe de Estado de 1973. Como dirigente comunista, liderou o processo que fez o PCU deixar de ser um partido sectário e dogmático, que reproduzia as visões das classes dominantes, para se transformar na maior corrente da esquerda uruguaia e força dirigente do movimento sindical unificado. Em consequência disso, se transformou em pedra fundamental da construção da unidade dos setores populares e de esquerda, cuja expressão é a Frente Ampla, fundada em 1971. Com a ditadura civil-militar inaugurada em 1973, Arismendi foi preso e, em seguida, expulso do Uruguai, exilando-se na URSS a partir de 1975 de onde retornou em 1985 com a redemocratização do país.

Como intelectual marxista, Arismendi promoveu uma leitura original da teoria de Karl Marx, conectando dialeticamente o pensamento do alemão com o projeto bolivariano, o anti-imperialismo martiano e o marxismo de José Carlos Mariátegui para desenvolver a perspectiva continental da revolução e o caminho uruguaio ao socialismo. A partir das experiências históricas oriundas da revolução cubana, a via chilena ao socialismo e a degeneração das democracias liberais em meados de 1960, aprofundou suas formulações acerca das vias e métodos para se construir a sociedade socialista, desenvolvendo a perspectiva do caminho democrático ao socialismo.

Em torno desses debates, Arismendi polemizou com dirigentes e intelectuais, revolucionários e comunistas, da América Latina e do mundo, com destaque para Enrico Bellinger, líder dos comunistas italianos na década de 1970, e a proposta que se denominou eurocomunismo. Durante seu exílio na URSS, aprofundou seus estudos teóricos, especialmente sobre o pensamento de Antonio Gramsci, formulando seu principal conceito, nomeado Democracia Avanzada, no qual questiona o conceito liberal de democracia. Ao retornar do exílio, em 1985, Arismendi se dedicou à construção do movimento Democracia Avanzada pelo qual se elegeu para o Senado, sendo impedido de assumir o mandato em virtude do seu falecimento, em dezembro de 1989.

Aportes ao marxismo latino-americano

O primeiro período da trajetória intelectual e política de Rodney Arismendi se destaca por suas primeiras leituras marxistas, realizadas na biblioteca do pai e em grupos de estudo dos quais participou quando era secundarista, à parte da estrutura partidária, portanto. Na faculdade de Direito da Universidad de la República (UDELAR) iniciou-se politicamente no movimento estudantil influenciado pela Reforma de Córdoba de 1918, aproximando-se do anti-imperialismo de José Martí e do marxismo mariateguista.

As primeiras obras de maior densidade intelectual de Arismendi se produziram durante o exílio na Argentina (1941-1945) diante da sua atuação no Diário Popular, um periódico antifascista que fazia oposição à ditadura de Gabriel Terra (1933-1938). Nas publicações intituladas "La filosofía del marxismo y el señor Haya de la Torre” (Montevidéu: Editorial América, 1945) e Para un prontuário del dólar (Montevidéu: Edic. Pueblos Unidos, 1947), Arismendi já anunciava originalidade de seu pensamento.

No entanto, um marco fundamental para a constituição das bases de seu pensamento, consiste na conferência ministrada a um grupo de intelectuais vinculados ao PCU, em 1948. O discurso do líder durante o evento está publicado sob a forma de panfleto intitulado Los intelectuales y el Partido Comunista (Montevidéu: PCU, 1948), e evidencia a visão do autor acerca da historicidade das ideias e da construção de uma consciência revolucionária. Ali Arismendi insere a revolução uruguaia no curso da história nacional e latino-americana, indicando a unidade do povo como saída para romper com a dependência do imperialismo e do latifúndio, promovendo uma revolução democrática de libertação nacional.

A chegada à Secretaria-Geral do partido inaugurou uma nova fase da atividade política e teórica de Arismendi, que durou até o triunfo da revolução cubana, em 1959. Neste cenário, o desafio que se colocava para o dirigente do PCU consistia na superação do dogmatismo e do esquematismo que marcou o período anterior da história dos comunistas uruguaios, identificado como Era Gómez (Leibner, 2011). Ao mesmo tempo, esse processo coincide com a realização do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), em 1956, quando Nikita Kruschev, novo líder da URSS, divulgou o “relatório secreto” contendo denúncias contra os crimes cometidos pelo antigo dirigente, Josef Stálin.

Nesta nova conjuntura, Eugenio Gómez, antigo líder do PCU, destituído da função e expulso do partido no contexto deste evento; se transformou em uma caricatura do culto à personalidade atribuído a Stálin, assim como da burocratização, do dogmatismo teórico e do aparelhamento da organização. A proposta que defendia a coexistência pacífica entre distintas formações econômicas e sociais, assim como a necessidade de buscar caminhos próprios para se chegar ao socialismo, possibilitou a Arismendi e aos comunistas uruguaios formular suas teorias autonomamente.

Quanto a sua leitura da realidade uruguaia e latino-americana, em meados do século XX, Arismendi identificou que o capitalismo estava passando por mudanças profundas a nível global. Segundo o autor, essas transformações apontavam na direção de um processo de financeirização das economias em que os banqueiros passaram a mandar mais que a indústria (Arismendi, 1962), alterando a composição hegemônica no interior do bloco histórico da burguesia em âmbito internacional. Tais mudanças teriam acelerado a crise do capitalismo originado na América Latina, aprofundando as contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção provocadas pela dependência dos países da região ao latifúndio, ao comércio exterior e ao imperialismo (Arismendi, 1962).

Para Arismendi as estruturas em crise naquela época haviam sido constituídas historicamente, ao longo de uma trajetória em que a modernização de tipo capitalista ocorreu sem a ruptura com as estruturas coloniais. Mais que isso, foi se enroscando com estas heranças, produzindo um capitalismo tardio, deformado e dependente. Para o autor, a grande virtude do XVI Congresso do PCU foi descartar “toda idea de ver a América Latina como una sociedad semifeudal y semicolonial, y si planteamos verla como una sociedad capitalista de un grado determinado, con desarrollos capitalistas tardíos pero importantes dentro del marco de la dependencia del imperialismo” (Arismendi, 1987, p. 58).

A partir destas premissas, Rodney Arismendi identificou que o caráter continental da formação social dos países da América Latina estabelecia uma relação dialética entre a “comunidade de tarefas da revolução uruguaia e latino-americana” com uma evidente “singularidade nacional”. Essa formulação se potencializou após o triunfo da revolução cubana, em 1959, vista por Arismendi como a expressão avançada da revolução continental. De maneira distinta a maioria dos PCs latino-americanos, desde os primeiros momentos o revolucionário uruguaio procurou analisar aquela experiência histórica concreta constituindo-se em ator proeminente na intermediação dos diálogos entre Cuba e URSS. Em sintonia com os comunistas da ilha, Arismendi definiu o processo cubano como uma revolução popular avançada (Arismendi, 1961), identificando que o triunfo do movimento 26 de julho abriu caminho para a construção de uma formação social de caráter transitório. Foi nesse contexto que Arismendi publicou duas de suas principais publicaçẽos, intituladas Problemas de una Revolución Continental (Montevidéu: Pueblos Unidos, 1962), tomos 1 e 2, nas quais o autor desenvolve a Teoria da Revolução Continental.

Além de coincidir com a crise do capitalismo latino-americano, conforme mencionado acima, a revolução cubana fortaleceu o surgimento de projetos de sociedade alternativos, com destaque para o diálogo de Arismendi com o desenvolvimentismo, a teoria da dependência e movimentos anticoloniais. Por outro lado, esse contexto esteve marcado pela degeneração das democracias liberais da região e pelo fortalecimento da extrema direita, que promoveu uma escalada autoritária redundando em uma sequência de golpes de Estado que inauguraram as ditaduras civis-militares que marcaram o período. Em especial no Uruguai, onde a democracia liberal havia se tornado um símbolo de identidade nacional, esse fenômeno aumentou a descrença na possibilidade de promover uma segunda e definitiva independência dentro da legalidade burguesa. Um símbolo desse fenômeno no país resulta na criação do Movimento de Liberación Nacional - Tupamaros (MLN-T), uma frente armada formada por frações de várias organizações, com destaque para ex-membros do Partido Socialista (PS) e do Partido Nacional (PN - blancos).

Por outro lado, a eleição de Salvador Allende (Chile - 1970) mostrou a “validade da luta política combinada com a ação múltipla das massas e o integral aproveitamento das possibilidades legais" (Arismendi, 1977, p. 70) para chegar ao governo. Entretanto, apesar da “diametral diferença de formas dos processos revolucionários do Chile e de Cuba – que esmaga todo o culto da receita e do dogmatismo –, e a aguda singularidade nacional e de vias entre um e outro passam a um segundo plano ante o similar conteúdo histórico” (Arismendi, 1977, p. 70). Ou seja, Arismendi identificou a existência de um caudal comum latino-americano de modo que a diversidade de caminhos reforçava o caráter continental da revolução e não o contrário. As reflexões de Rodney Arismendi acerca destas experiências e a proposta do caminho democrático ao socialismo podem ser encontradas em outra de suas principais produções intitulada Lenin, la revolución y América Latina (Montevidéu: Ediciones Pueblos Unidos, 1970).

Quanto ao caminho armado ao socialismo, para o autor, ainda que legítimas, em grande medida, as organizações guerrilheiras acabaram por substituir a direção política do processo pelo comando militar, transformando aquilo que deveria ser um método em uma doutrina. No caso dos Tupamaros, destituídos de uma teoria revolucionária coerente, estavam limitados à defesa de um socialismo nacionalista (Arismendi, 1970). Para Arismendi, a leitura insuficiente da realidade uruguaia impedia os Tupamaros de considerar a consciência democrática da população que, muitas vezes, os distanciava das massas, e não o contrário. Quanto à experiência chilena, no entanto, a principal crítica de Arismendi consistia no entendimento que um movimento político revolucionário que chega ao poder por via eleitoral e da unidade das massas, não pode prescindir da destruição do Estado burguês e os instrumentos de dominação dessa classe. Os debates em torno da via chilena ao socialismo se estenderam nas formulações de Arismendi, e se conectaram com as polêmicas entre o uruguaio e os comunistas italianos quanto à perspectiva que defendia a democracia como valor universal, uma marca do que se conhece como eurocomunismo. Rodney Arismendi entendia que, em certa medida, tanto o nacionalismo artiguista dos tupamaros quanto a defesa da democracia dos termos pautados por Enrico Bellinger e o PCI, consistem em reproduções das ideias hegemônicas e de valores liberais.

Consequentemente, combatia as visões etapistas que projetavam nas burguesias dos países periféricos características democráticas, anti-imperialistas e, em alguns casos, revolucionárias. Para o autor, as heranças coloniais e os limites ao pleno desenvolvimento das forças produtivas evidenciam os limites, bem como a impossibilidade das burguesias ditas nacionais de liderar movimentos de genuína emancipação nacional. Influenciados pelo esquematismo e cópia de modelos estranhos à realidade latino-americana e pela teoria do desenvolvimento advinda da CEPAL, inúmeros PC’s passaram a defender o estímulo de desenvolvimento capitalista, liderado pelas “burguesias nacionais”, como caminho para superar as heranças coloniais desses países. Para Arismendi, o desenvolvimentismo era o principal obstáculo para a construção de um projeto revolucionário, principalmente no que diz respeito à disputa da consciência das massas. De acordo com o autor, a aparência revolucionária e popular de figuras como Juan Domingos Perón, exemplo desse movimento, “esfuma a presença das classes” (Arismendi, 1977, p. 136) e coloca o ímpeto revolucionário das massas a serviço dos interesses da grande burguesia.

Arismendi reivindicava a concepção leninista da revolução ininterrupta, entendendo que a revolução socialista seria resultado de uma trajetória histórica, marcada por fases e etapas, em que a consciência social dos trabalhadores corresponderia a determinadas fases do processo histórico e ao acúmulo político e ideológico produzido pelas forças revolucionárias. Sob esse prisma, a respeito das etapas da revolução, Arismendi afirmou que “a primeira transforma-se na segunda, a segunda resolve de passagem os problemas da primeira, e só a luta determina até que ponto a segunda consegue ultrapassar a primeira” (Arismendi, 1977, p. 59). Sua visão dialética permitiu compreender que, no Uruguai, as revoluções democrática e socialista serão duas fases de um só e continuado processo histórico (Arismendi, 1962).

Foi no curso desses debates que Rodney Arismendi formulou a perspectiva do caminho democrático ao socialismo, sob esse ponto de vista, identificou uma relação dialética entre as lutas de libertação nacional e a construção do socialismo na América Latina. Na compreensão de Arismendi há uma distinção entre o que seria o caminho, a via de aproximação e a passagem ao socialismo. Por caminho ao socialismo, se refere às questões mais estratégicas e estruturais que determinam o sentido histórico de um processo de libertação nacional determinado. A via de aproximação possui um caráter conjuntural, compreende uma fase de acumulação de forças inaugurada pela abertura de uma rota histórica que permitiria constituir um novo poder de caráter transitório.

Para Arismendi, esse processo pressupõe a construção de uma nova hegemonia social e a construção do que denominou de bloco social das mudanças, a unidade de distintas classes, frações ou camadas destas em um grande bloco dirigido pelos trabalhadores em aliança com os camponeses. O elemento fundante, capaz de produzir a coesão deste bloco, consiste na construção de um programa democrático avançado que deveria ser a expressão de uma síntese política em torno da defesa de reformas democráticas radicais (Arismendi, 1962). Por isso, Rodney Arismendi compreendia que a Frente Ampla (FA) seria a expressão material e concreta dessa síntese política e se constituía como a força social da revolução (Arismendi, 1958).

A abertura desta etapa histórica de transição se iniciaria com a chegada da FA ao governo, abrindo caminho para a construção de um poder democrático avançado (Arismendi, 1970) com o objetivo de acumular forças, aproximando-se da passagem ao socialismo. Para Arismendi não há caminho único ao socialismo, ao contrário, o caráter continental da revolução revelava que a sua diversidade é o que reforça o sentido histórico comum. Ao mesmo tempo, compreende que não há um único caminho para se chegar ao socialismo, mais que isso, afirmava que o mais provável seria o entrelaçamento de vias e caminhos de acordo com as condicionantes surgidas ao longo do processo histórico.

Do período de exílio até o final de sua vida, Arismendi publicou artigos na Revista Estudios, além de obras sobre o pensamento marxista, como Marx y los desafíos de la época: y cinco trabajos más (Montevidéu: La Hora, 1983), discurso proferido na Escola Superior Karl Marx, em Berlim “Oriental” (República Democrática da Alemanha) quando recebeu o título de doutor honoris causa desta universidade. Em 1987, publicou “Apuntes sobre Gramsci” (Estúdios, Montevidéu, 1987), um encarte de Estúdios, em que desenvolve reflexões sobre a obra do fundador do Partido Comunista Italiano (PCI).

Referencias

Arismendi, R. (1977). A revolução latino-americana. Editora Avante.

Arismendi, R. (1999). La construcción de la unidad de la izquierda: Selección de textos (1955-1989). Grafinel.

Arismendi, R. (2013). La unidad de América Latina: Selección de textos (1970-1989). Fundación Rodney Arismendi.

Barros-Lémez, A. (1987). Arismendi: Forjar el viento. Monte Sexto.

Leibner, G. (2011). Camaradas y compañeros: Una historia política y social de los comunistas del Uruguay. Trilce.

Principales obras del autor

Arismendi, R. (1953). El congreso de los constructores del comunismo. Ediciones Pueblos Unidos.

Arismendi, R. (1984). Marx y los desafíos de la época: Y cinco trabajos más. La Hora.

Arismendi, R. (1987). Apuntes sobre Gramsci. Estudios.

Arismendi, R. (1995). Para un prontuario del dólar. Ediciones de la Banda Oriental.

Arismendi, R. (1997a). Problemas de una revolución continental: Tomo I. Granfinel.

Arismendi, R. (1997b). Problemas de una revolución continental: Tomo II. Granfinel.

Arismendi, R. (2013). La unidad de América Latina: Selección de textos (1970-1989). Fundación Rodney Arismendi.

Arismendi, R. (2016). Lenin, la revolución y América Latina. Hijos.